sábado, 9 de junho de 2012

ENTREVISTA COM RAPHAEL LOPES

Confira a entrevista de Raphael Lopes, professor de Odissi na Escola Campo das Tribos - SP:
Entrevista feita para o blog Dançarinos de São Vicente.

Dançarinos de SV: Quando surgiu a dança na sua vida, como foi e há quanto tempo faz? Raphael: Chega a ser clichê mas é impossível não dizer o que todos os dançarinos dizem: a dança surgiu desde sempre em minha vida! Sempre gostei muito de me apresentar nas festas escolares, e desde criança gostava de montar coreografias próprias paras as músicas que ouvia.
Quando vim de São Paulo com quinze anos para São Vicente comecei a fazer as oficinas culturais da Prefeitura de SV (em 2000), em partes porque certamente seria um ambiente para fazer amigos já que tinha acabado de chegar de outra cidade, mas principalmente porque ansiava participar de algum grupo em atividade.
Dançarinos de SV: Você conheceu a Dança Clássica Indiana através de quem? Raphael: Uma amiga minha de Santa Catarina (dançarina de Raks el Shark) havia visto uma performance de Bharata Natyam (estilo clássico do Sul da Índia) com a famosa esposa do físico indiano Amit Goswami, a psicóloga Uma Krishnamurti.

Ela, sempre tão crítica, me descreveu entusiasmada sobre o que havia visto, e eu então comecei a pesquisar por conta. Na época a internet era um veículo pouco popular e útil para esse segmento em específico, e me lembro de vasculhar bibliotecas em busca de referências sobre dança indiana, o que era quase impossível haja visto a quase total falta de publicações nacionais sobre o tema.
Em 2005, conheci a bailarina Silvana Duarte e pude fazer seu curso de Formação Teórica e Embasamento Técnico do Estilo Odissi. Desde então não parei mais de buscar informações e contatos que enriqueçam meu know-how.
Dançarinos de SV: Você teve contato com outras modalidades. Pode nos falar um pouco sobre elas e no que isso contribuiu na construção da sua carreira? Raphael: Sim, comecei com as oficinas de street dance da SECULT. Na época entrei primeiramente para a cia de dança do Douglas Rebelo (Fator Funk) seguindo para a cia do Alessandro Cardoso (Atmosfera).
Na época pude realizar meu sonho recém chegado da capital em conhecer novos amigos (alguns os quais mantenho contato até hoje), e de viajar para algumas cidades para me apresentar. Em 2002 tive contato com o Holokahana Dance, onde tive minhas primeiras incursões fora do street dance.
Na mesma época comecei a conhecer outros estilos além da dança tahitiana como o dabke e o flamenco. Todas essas influências ficaram visíveis quando criei minha própria companhia de dança, que se chamava Ágora (as antigas praças Gregas) e mesclava em meu trabalho todos os estilos de dança pelos quais transitei. Em partes sofri muita influência do meu primeiro coreógrafo Douglas Rebelo, e mantive sempre muito forte o seu estilo em manter um conceito cênico sempre em evidência.
Nessa mesma época tive a oportunidade de fazer aulas no Ballet Valderez, e conheci o estilo Afro na cia de dança Dinastia, onde tive a oportunidade de ser convidado para montar uma coreografia de street dance num momento onde esse estilo sofria sua grande revolução do old school para o new school.
Daí em diante, me foquei unicamente na dança clássica Odissi. Posso afirmar que esse é o meu estilo, mas guardo com carinho todas as minhas histórias com os outros estilos que pude dançar.
Dançarinos de SV: Raphael, sabemos que na nossa região a Dança Clássica Indiana ainda é pouco conhecida, apesar de ser uma modalidade bem antiga. Em sua opinião o que falta para aumentar a divulgação nesta modalidade? Raphael: A dança Odissi possui uma cárater cultural e espiritual muito forte, não tem caráter apelativo e necessita ser apreciada como uma refinada obra de arte. Somos muito poucos bailarinos de danças clássicas indianas no Brasil, e estamos aos poucos introduzindo essa dança milenar para o público em geral.
Em partes, normalmente irá se interessar por essa modalidade apenas aqueles já vinculados ou curiosos com a cultura oriental. Agora compete a cada bailarino saber difundir sua arte, e acima de tudo saber explicar e esclarecer sobre a mesma.
Dançarinos de SV: Você fez aulas aonde e quais foram seus professores? Raphael: Iniciei meus estudos com a bailarina Silvana Duarte, seguidos por três anos de estudos com Andrea Prior no Espaço Rasa – ambas na capital. Retomei mais um ano de estudos com Silvana Duarte, e tive aulas com a professora Andrea Albergaria em Atibaia. Em 2012 tive a oportunidade de estudar na conceituada escola Rudraksha Foundation em Bhubaneswar (Orissa – Índia), diretamente com o Guru Bichitrananda Swain – renomado coreógrafo e bailarino com quase 40 anos de carreira.
Dançarinos de SV: O que mais te fascina na Dança Clássica Indiana? Raphael: A riqueza de detalhes e a busca insaciável pela beleza transcendental. É uma dança com pelo menos dois mil anos de tradição, com um corpo de conhecimento profundo, que é interconectada com a mitologia e com a literatura hinduísta. A formação total nessa dança envolve uma imersão na cultura hindu, que sempre me fascinou
Dançarinos de SV: Com a novela Caminho das Índias que passou na Rede Globo as pessoas puderam conhecer um pouco mais sobre o universo da dança desse povo tão místico. Mas, os estilos apresentados na novela eram mais populares. Você pode nos esclarecer um pouco sobre os diferentes estilos de Dança Indiana? Raphael: A novela infelizmente foi um desserviço a dança clássica indiana. Nada contra as danças populares, mas o modismo gerado com a novela permitiu que pessoas sem o devido cuidado e respeito iniciassem a copiar vídeos do youtube ou mesclar de forma errônea danças clássicas em suas coreografias. Em partes a moda passou e com isso o número de aproveitadores reduziu drasticamente, mas as ditas danças modernas recheadas com tentativas efusivas de executar movimentos clássicos ainda aparecem. A famosa indústria de filmes Bollywood popularizou em todo o mundo a dança Bhangra, o Kathak, e a Kalbelya.
Só que esses estilos não podem ser entendidos como Bollywood, são totalmente diferente entre si sendo o Kathak também um estilo clássico. Esses erros infelizmente são perpetuados pelos ditos dançarinos modernos, que normalmente rotulam o clássico de chato ou sonoramente desagradável ao ouvido ocidental.
Ouso dizer que se somos poucos bailarinos clássicos no Brasil, são ainda menos os autênticos dançarinos da dita dança indiana de Bollywood.
Dançarinos de SV: Por que você optou pela clássica? Raphael: Depois de muitos anos como um dançarino performático, e ao iniciar meus estudos em massoterapia, metafísica e filosofia oriental passei a me preocupar por um meticuloso e acurado aprofundamento em tudo o que passei a fazer.
Sem contar que a dança clássica é uma fonte perene de informação, através da qual pude amadurecer como ser humano.
Dançarinos de SV: Como a sua família e amigos enxergam seu trabalho? Você sempre teve apoio, ou enfrentou preconceitos com a sua profissão? Raphael: De início minha família estranhou muito minha súbita paixão pela dança, já que fui um menino tímido e inteligente com um provável futuro acadêmico. Na medida em que os anos passaram, e eles viam que a dança não me trazia retorno financeiro o desinteresse deles por minha carreira ficou ainda mais embasado.
E pra piorar, estudar dança clássica indiana exige um certo desprendimento financeiro (rsrs). Hoje vivendo com o Vinícius há quase cinco anos, encontrei nele um amigo a confiar e incentivar minha carreira. Inclusive cheguei a gastar quase todo o meu salário mensalmente com as minhas aulas, e isso só foi possível graças à compreensão dele.Minha família só entendeu realmente que eu ia viajar para Índia para dançar prestes a subir no avião rsrs…. No meu caso, uma formação real em Odissi só é possível fora do país. E bancar uma viagem dessa anualmente só é possível com muita administração familiar e o apoio de casa.
Dançarinos de SV: O que você mais deseja realizar hoje na Dança Clássica Indiana? Raphael: Gosto muito de lecionar. Gosto de conversar e compartilhar meus conhecimentos em aula, como professor meu maior sonho é ter alunos interessados e dedicados.
Com minha viagem tive a oportunidade de me tornar representante do meu Guru aqui no Brasil, e estou programando uma turnê pela América Latina com ele em breve. Também desejo me apresentar no Festival Internacional de Odissi, e estou me programando para isso no ano que vêm. Quero muito poder levar a dança a muitos e muitos palcos, levar o Odissi ao coração das pessoas.
Dançarinos de SV: Como a sociedade pode contribuir com isso? Raphael: A sociedade precisa valorizar e estar presente nas atividades artísticas. É triste ver que a maioria dos festivais de dança possui em sua plateia apenas os parentes e amigos mais próximos dos bailarinos.
Quando o interesse geral aumentar pela dança, um maior número de apresentações se fará possível. Ao mesmo tempo o bailarino precisa ser respeitado como profissional, receber pelo seu trabalho, e isso se faz apenas se a sociedade consumir Arte.
Dançarinos de SV: Para concluirmos, deixe uma mensagem para todos os amantes da dança: Raphael: Busque ser o melhor sempre, não melhor do que o outro mas sempre o melhor que você pode ser e dar de si mesmo. Aprendam a respeitar o trabalho do outro bailarino, e saibam prestigiar e consumir arte. Deixe a crítica ácida e o comentário maledicente, e simplesmente faça o melhor ao invés de julgar o outro. Ensaie como se estivesse sempre em cena, e dedique-se sempre a execução perfeita do movimento. E lembre-se sempre de sentir intensamente o palco, pois não há nada como a sensação de dançar!!!
Conheça melhor a Dança Clássica Indiana 
Endereço eletrônico: www.shaivabhakta.blogspot.com 
Dedicado a cultura, arte e espiritualidade hindu. 
 E-mail rapha.odissi@gmail.com
Confira a entrevista cedida originalmente no blog : 
Visite e curta: Nossa Tribo & Nossa Dança

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ENTREVISTA - GABRIELA MIRANDA

BLOG: Conte-nos sobre sua trajetória na dança do ventre/tribal; Como tudo começou para você? 

Eu comecei a dançar ainda pequena, no início das minhas atividades escolares. Não me lembro de não dançar. Eu fazia aula com uma professora que dava movimentos de street dance e jazz , na minha própria escola. Depois conheci a Dança Cigana e comecei a estudar por conta própria, ainda pequena. Mais tarde, pelos meus 10 ou 11 anos (em 1999) eu me interessei por Dança do Ventre e também comecei a estudar por conta própria. Fiz meu primeiro workshop com essa idade, pois na minha cidade não haviam professoras com aulas regulares (eu cresci numa cidade bem pequena no litoral gaúcho, chamada Imbé).



Pelos meus 14 ou 15 anos conheci minha primeira professora de Dança do Ventre e minha grande mestra na dança, Rôsmary Lisboa Lopes, ela havia recém se mudado para minha cidade e eu imediatamente comecei a ter aulas regulares com ela duas ou três vezes por semana, quando eu podia. Em 2004, eu tendo uns 15 anos, ela me pediu para começar a substituí-la nas aulas quando ela fosse viajar e, assim, comecei a dar aulas sob a sua supervisão. Ela foi e é realmente importante para mim porque suas aulas eram muito especiais. Ela sempre preferiu se manter fora do meio competitivo da dança e sempre encarou a Arte como uma forma de expressão mesmo, e não como algo lucrativo. Suas aulas não tinham espelho - ficávamos em círculo - e eram centradas no autoconhecimento. Ela me ensinou a enxergar a dança como algo natural, algo que vem da alma. Paralelo a isso comecei a ir para Porto Alegre fazer workshops e aulas com outras professoras. Fiz um curso para professoras com a Brysa Mahaila que me acrescentou muito! Comecei a dar aulas em diversas escolas de dança e academias da minha cidade e cidades vizinhas.


Em 2006, eu conheci as fusões através de um vídeo da Ariellah... Eu sempre fiz parte de um meio mais alternativo e sempre ouvi muita música Dark, Gótica, EBM, 80's, Metal em geral, então comecei a procurar por fusões góticas na internet... Quando eu descobri que existiam e, mais, que existia todo um seguimento para essa dança, eu SURTEI! O primeiro vídeo que vi foi um da Ariellah Aflalo e mudou minha vida, sem exageros! Quando assisti vídeos de Fusão e depois de Tribal Fusion, eu me senti em casa! Era aquilo que eu sempre quis fazer e nem sabia! Nessa época eu já tinha todos os piercings que tenho hoje e algumas tatuagens, então, cada vez que ia me apresentar em festivais de Dança do Ventre o povo me olhava meio estranho. Veja bem, isso há vários anos atrás e no Sul, onde o povo não é tão liberal como aqui em São Paulo. Imediatamente eu comecei a estudar os movimentos por conta própria, pois, de novo, não haviam professoras na minha cidade. Um ano depois comecei a me aventurar a fazer solos e a acrescentar os movimentos de Tribal nas minhas aulas de Dança do Ventre. Minhas alunas gostaram tanto que montei minha primeira turma de Tribal Fusion e, em seguida, inserimos o estilo no nosso grupo de dança. As turmas de Tribal só aumentaram e passei a dar aula do estilo em outros lugares, além da minha cidade.

Em 2008, fiz aula com Ansuya Rathor e com Bárbara Kale, bailarina de Tribal Fusion e ATS do sul, que dançou em Chicago com o Read My Hips. Essas aulas foram um divisor de água na minha carreira. Ansuya ensinou fusões e até um pouquinho de Tribal, além de arrasar num work de snujs. Com a Bárbara foi apenas um workshop de ATS, mas abriu a minha mente de um jeito incrível! Comecei a estudar o ATS paralelo ao Fusion e achei a origem de diversos passos que as bailarinas que amo usavam e eu não sabia direito da onde vinham. 

Em 2009, vim para São Paulo, para o Encontro Internacional realizado pela Bele Fusco, conhecer a minha maior inspiração: Ariellah Aflalo. Ela é realmente importante para mim porque foi o vídeo dela que deu rumo para a minha dança. Fiz aula com Sharon Kihara, Mardi Love e, claro, com Ariellah. Conversei muito com ela e me senti extramente feliz em saber que além de ser minha bailarina favorita, ela é um ser humano incrível! Desde então não a larguei mais e faço aula com ela sempre que posso. Depois de alguns meses me mudei para São Paulo, por motivos amorosos (hehehehe), e começou um novo capítulo no Tribal para mim. Desde então, conheci muita gente legal, viajei bastante e fiz aulas com pessoas incríveis, entre elas: Mira Betz (que junto com a Ariellah está no topo da minha lista de inspirações), Frederique (idem, uma pessoa e professora incrível!), Moria Chappell, Kami Liddle, Sônia Ochoa, Mariana Quadros, Kilma Farias, Bela Saffe, Nanda Najla, Mahaila el Helwa e por aí vai... Do Tribal e da Dança do Ventre; do Brasil e de fora.


BLOG: Deixe um recado para os leitores do blog.

Eu sou péssima nessas coisas... Bom, eu acho que o quê nos faz dançar, antes de tudo, é a paixão. As emoções fortes, em geral, são o quê nos move. O amor e também a dor... Eu sei que é piegas e batido o que vou falar, mas a dança para mim é realmente uma ferramenta de catarse, de expressão e também de expurgação... Eu tento manter isso em mente, mesmo quando me frustro com minha técnica, meus solos, minhas coreografias, porque vivo disso profissionalmente. Quando tenho vontade de desistir eu lembro do que me faz dançar e continuo... Eu danço porque não sei viver sem dançar. Quando meu corpo transborda com alguma emoção ao invés de chorar, eu danço. É brega, mas é verdade. Então a dica é: Dance porque você ama dançar. Não force nada. Tudo virá se for consequência da sua paixão, do seu amor pela dança. Trabalhe e treine muito se deseja evoluir com a sua técnica, mas deixe a sua dança fluir naturalmente e ela vai te conduzir por caminhos inesperados.

ENTREVISTA COMPLETA COM FOTOS E VÍDEOS:
http://aerithtribalfusion.blogspot.com.br/2012/06/entrevista-6-gabriela-miranda.html


Visite e curta: Nossa Tribo & Nossa Dança