quarta-feira, 6 de maio de 2015

UMA HISTÓRIA DO ESTILO TRIBAL AMERICANO

Texto extraído do Blog Tribal Mind
*por Rina Orellana Rall, principal dançarina FCBD 1988-1998
Tradutora: Suzana Guerra | Revisão: Aline Oliveira

A Dança do Ventre de Estilo Tribal Americano é claramente uma nova forma de dança com suas origens na dança do Oriente Médio tradicional. Os componentes desta história incluem as dançarinas ciganas que inspiraram os Orientalistas do século dezenove e a introdução da dança nos Estados Unidos na Feira Mundial de Chicago em 1893. A dança cigana então se transformou num estilo de dança de cabaré urbano para agradar um público antigo no Egito. Também incluídas nesta história estão as professoras dos últimos cinqüenta anos que são a linhagem direta do que atualmente é conhecido como Estilo Tribal Americano: Jamila Salimpour, diretora de Bal-Anat, Masha Archer, diretora da Trupe de Dança Clássica de São Francisco, e Carolena Nericcio, diretora da FatChance BellyDance. A Dança do Ventre na era moderna sempre se modificou para satisfazer as expectativas de seus expectadores e isso é o que liga as dançarinas ciganas do século dezenove do Oriente Médio com as dançarinas Americanas modernas do século vinte.

Breve Avaliação da Dança do Ventre e Definição de Estilo Tribal Americano - Quando uma dança particular é tirada de seu contexto cultural e colocada em um palco, ela muda. Ela muda de modo que satisfaça seu novo público e suas expectativas. A Dança do Ventre como entretenimento secular do Oriente Médio, no entanto, sempre se adaptou e mudou para ajustar-se às expectativas de seus expectadores. O ímpeto para a adaptabilidade é um assunto econômico. É encorajar os expectadores a darem mais dinheiro às dançarinas. Isto é verdade para as dançarinas ciganas que a originaram, verdade para as dançarinas de cabaré Árabes que a transformaram e verdade para as dançarinas Americanas que a adotaram. Meu foco aqui é estudar a Dança do Ventre de Estilo Tribal Americano que tem suas raízes nas danças ciganas do Oriente Médio mas carrega o toque moderno de sensibilidades artísticas Americanas.

Um exemplo principal de Estilo Tribal Americano apresentado hoje é da FatChance BellyDance da qual eu sou a diretora assistente e com a qual tenho me apresentado desde 1989. Eu tenho uma tendência a querer usar a forma de dança como meu próprio veículo de auto expressão sem prestar muita atenção ao contexto cultural. No entanto, eu sei que sem o fundo cultural eu nunca determinaria a dança por inspiração. Então, eu focarei na linhagem direta que levou até o estilo da FatChance e o contexto cultural do qual a forma de dança originou-se.
A linhagem começa com as dançarinas ciganas da África do Norte, particularmente as Ghawazee do Egito e as Ouled Nail da Argélia. As dançarinas ciganas apresentaram-se nos Estados Unidos em 1893 na Grande Exposição de Columbia em Chicago. O movimento que estas dançarinas criaram gerou espetáculos burlescos e inspirou todo um novo gênero de Hollywood da mulher sedutora. As dançarinas árabes foram atraídas a este glamour e quiseram imitar os ideais Ocidentais. Então elas adotaram a versão de Hollywood como sua própria. Assim, a dança do ventre de cabaré Egípcio moderna tradicional é uma construção Americana que foi modificada pelas Árabes para suas próprias necessidades artísticas e econômicas.

Jamila Salimpour, americana, é considerada a criadora da Dança do Ventre de Estilo Tribal Americano. Seu grupo de dança, Bal-Anat, construiu o caminho para outras usarem uma fusão das várias danças regionais do Oriente Médio e África do Norte como inspiração para sua própria versão de dança do ventre. Masha Archer, uma ex-aluna de Jamila, acrescentou mais uniformidade ao novo estilo, por meio de não distinção entre as regiões e simplesmente identificando-as como dança do ventre. Carolena Nericcio formou a FatChance BellyDance depois de estudar com Masha e combina as metodologias das duas professoras. O que essas artistas Americanas têm em comum com suas criadoras ciganas é que todas elas adaptaram a dança para atender suas necessidades de sobrevivência e de valor de entretenimento.



O Estilo Tribal Americano é um estilo de fusão étnica, influenciado pela dança do Oriente Médio mas inspirado pelas sensibilidades artísticas Americanas. Não tem nada a ver com a representação de uma tribo particular, mas ele combina vocabulários de movimento e traje regional para formar uma apresentação coesa. A parte "Americana" do rótulo reconhece que as dançarinas estão continentes de distância da cultura que criou a forma de dança e estão tirando licença artística com ela. No entanto, elas ainda devem reconhecer, respeitar e honrar as raízes. A aparência do Estilo Tribal Americano parece autêntica por causa de sua semelhança com várias tribos ciganas por toda a África do Norte, Oriente Médio e Índia. Muitas vezes, os Árabes comentam que o estilo os lembra do 'lar'. No entanto, os trajes não são autênticos mas dão a sensação de lar.



O Passado Cigano

A Dança do Ventre tem origens em cultos de fertilidade antigos e auxílio no nascimento das crianças em um tempo em que a religião era uma parte integrante da vida diária e tinha relevância em cada aspecto da existência humana. No entanto, a dança pélvica feminina desapareceu em muitas partes do mundo, mas permaneceu em áreas como o Oriente Médio e África do Norte.4 Ela então progrediu de uma esfera religiosa para o reino de espetáculo e entretenimento em uma nova classe de dançarinas profissionais.

A aceitabilidade da dança no Oriente Médio estava entrelaçada com o papel das mulheres na sociedade. Nenhuma mulher Egípcia bem criada consideraria dançar em público. A dança como um passatempo social no limite do lar era aceitável para as mulheres apenas entreterem uma a outra. A dança profissional era o domínio das classes inferiores quando ela era limitada às "ciganas, comunidades minoritárias e os membros mais pobres da sociedade". Desconfiavam destas dançarinas por seus modos rebeldes, contudo elas foram recebidas com prazer nos lares das classes superiores para animar festividades de família.

As ciganas sempre assimilaram costumes e tradições locais e faziam os seus próprios. Elas poliram e ampliaram a dança e música local a fim de usá-las como um meio de sustento. Então, quando os Franceses encontraram a dança na África do Norte em 1798 durante as invasões Napoleônicas, as dançarinas ciganas logo descobriram que os soldados Franceses eram uma nova e abundante fonte de renda. Elas adaptaram seu repertório para atrair mais renda. A elite nativa e educada não sentia que a dança era respeitável nem importante o bastante para registrar. Naturalmente, as dançarinas se tornaram uma obsessão para muitos viajantes Ocidentais por causa da suposta sensualidade proibida que as dançarinas representavam.

Jamila Salimpour

Ela é creditada por muitos pelo início da revivificação da dança do ventre nos Estados Unidos e ser a criadora do que é agora conhecido como Estilo Tribal Americano. Ela também desenvolveu um método de listagem detalhada verbal e terminologia para os movimentos que ela aprendeu de artistas visitantes do Oriente Médio. Sua introdução à dança veio com as descrições de seu pai das dançarinas Ghawazee no Egito enquanto ele se situava lá com o exército Siciliano. Ela também acompanhou a sua senhoria Egípcia a filmes Egípcios quando a dança era exibida. Ela tentou se lembrar de cada movimento que ela tinha visto: "E assim, das lembranças de meu pai, do conhecimento em primeira mão de minha senhoria e dos exemplos do filme, isto foi como eu adquiri minha informação sobre a dança".

Ela começou ensinando dança no início dos anos 50, mas teve dificuldade porque ela nunca tinha aprendido formalmente a dança e não sabia como ensiná-la. Isto foi até que ela começasse a dançar em São Francisco nos anos 60 e virasse dona do Bagdad Cabaret na Broadway no qual ela foi exposta a dançarinas contratadas de diferentes países no Oriente Médio. Neste ponto ela começou a catalogar movimentos e criar um vocabulário de dança utilizável:

O acúmulo de informação criou um repertório vasto para suas alunas coreografarem suas próprias peças. Jamila tinha se concentrado no estilo de cabaré tradicional que era adequado para boates, mas em 1967 ela começou a perder algumas das suas alunas. Ela descobriu que elas estavam indo com figurino para a Renaissance Pleasure Faire (Feira de Prazer da Renascença) na Califórnia do Norte e apresentando-se espontaneamente ao longo da Feira. O organizador da Feira suplicou a ela para controlar a situação. Então, ela formou o grupo Bal-Anat para organizar as dançarinas para se apresentarem na Feira e dirigir suas alunas.

A experiência de Jamila como uma acrobata com o Ringling Brothers Circus enquanto ela era uma adolescente se tornou treinamento essencial para o novo formato do grupo. Ela moldou a trupe depois de um show de variedades similar ao circo que poderia ser visto em um bazar no Oriente Médio. O show de variedades continha números de dança que eram de três a cinco minutos de duração e representava um perfil dos velhos estilos do Oriente Médio. Suas alunas Americanas representaram músicos do Egito e Marrocos, uma dançarina da Ouled Nail da Argélia, dançarinas da Turquia e dançarinos de bandeja masculinos.

O estilo de Bal-Anat não foi identificado na ocasião porque cada membro representava uma dança regional diferente e vestia um traje apropriado. Porém, elas poderiam ser identificadas como Estilo Tribal Americano por causa da definição de fusão étnica, e porque elas modificaram seu espetáculo para um público Americano em um palco Americano.

O formato de Bal-Anat foi imitado por todos os Estados Unidos, embora as novas praticantes normalmente não soubessem de onde o estilo originou-se. "Realmente, muitas pessoas pensavam que ele era a 'idéia genuína' quando na realidade era metade  genuíno e metade falso". Os expectadores na Feira pensaram que testemunharam danças autênticas embora o folheto os informasse que o grupo era de muitas tribos. Jamila especula que é de onde a expressão "dança tribal" originou-se. Enquanto dirigia a Bal-Anat para a Renaissance Pleasure Faire, Jamila continuou a treinar suas alunas no estilo de cabaré. Ela freqüentemente as mandava se apresentar nas várias boates na Área da Baía de São Francisco até mesmo depois que ela se aposentou de apresentação.

Masha Archer

Descontinuou seus estudos com Jamila uma vez que ela estava pronta para se apresentar nos clubes. Ela estudou com Jamila Salimpour durante dois anos e meio e uns semestres antes de fundar a Trupe de Dança Clássica de São Francisco que existiu durante quatorze anos (dos anos 70 até meados dos anos 80). De acordo com Masha, Jamila sentiu que a dança merecia um local melhor do que restaurantes e bares, mas não havia nada que poderia ser feito sobre isto: "Ela contava que tão desagradável quanto a cena podia ser, você tinha que aguentar aquilo porque era apenas uma competição na cidade".

A disciplina original de Masha foi extraída e ela usou a dança para expressar as linhas que ela imaginou. Ela considera que sua herança artística é inspirada por algo especial e responsavelmente usa qualquer parte que deseja:

Ela não usa qualquer rótulo no momento de definir seu estilo. Era simplesmente "Dança do Ventre". Carolena Nericcio, membro da sua trupe durante sete anos, comicamente chama estilo de Masha, a "Tribal Art Noveau (Nova Arte Tribal), porque ela queria que seu traje refletisse mais que uma mistura de arte Européia".

A abordagem de Masha ao figurino foi influenciada por Jamila, mas ela a empregou também "em um ecletismo aquisitivo explorador e maluco. "Nós enxergamos como uma espécie de Européia, Parisiense-Tunisianas com um visual tribal Bizantino muito forte, o que foi completamente inventado." Masha persistiu que o visual era aparentemente autêntico por causa das jóias tribais e peças antigas do Oriente Médio e Europa. Ela referiu-se a ele, apesar, como "Americano Moderno Autêntico" por causa do conceito Americano de tomar liberdades com autenticidade e origens.

Carolena Nericcio

Carolena Nericcio começou a estudar com Masha Archer aos quatorze anos de idade. Ela treinou com Masha durante sete anos antes do início da FatChance BellyDance em 1987. A FatChance é uma mistura das duas metodologias em termos de figurino e formato de palco. O formato de estilo tribal veio da Jamila: "...o coro, a montagem do coro de meia-lua e as dançarinas saindo individualmente para fazer uma pequena rotina de dois ou três minutos e depois voltando para o coro". Elas seguem o estilo da Jamila de usar trajes pesados mas o estilo da Masha de ter o mesmo visual de fusão para cada uma. Carolena enfatiza a  suas alunas a mesma presença de palco e personalidade em público que Masha e Jamila ensinaram. Ela também preserva toda a intensidade do encorajamento das dançarinas entre si com zhagareets (zagrutas) (a ululação vocal) durante uma apresentação. Uma ligação direta à Masha é a postura, mantendo o tórax erguido e gracioso e mantendo uma consciência de integridade.

Masha tomou liberdades com esta forma porque ela sentia que era permitido por sua herança artística. Carolena, no entanto, executou a dança  próximo a suas raízes culturais usando principalmente música folclórica da África do Norte e Oriente Médio e mantendo os movimentos básicos para dança do ventre:

Carolena tem um profundo respeito pela cultura de onde a dança do ventre se origina. Mas ela também se considera uma artista que quer reunir peças convenientes: "Eu quero ser capaz de promover esta cultura por idéias mais criativas mas eu também quero defendê-la de pessoas que desmontariam a estrutura dela". Fiel à natureza cigana de adaptabilidade para sobrevivência, a ênfase principal na sua estrutura é um "estilo esteticamente agradável", o que fornece um bom espetáculo. A FatChance dança músicas que as inspira e contribui para o sentimento tribal folclórico da trupe. Quando perguntaram se ela via Estilo Tribal Americano como puramente Americano ou como uma forma diferente do contexto cultural, Carolena respondeu que ela era ambas. Às vezes ela é mais Americana e às vezes ela é mais Egípcia.”

O que é muito importante, entretanto, é que as dançarinas mantêm o espírito fiel à cultura. Carolena sabe a importância de permanecer fiel ao contexto cultural, mas ela sabe que o Estilo Tribal Americano está aqui para ficar e constantemente evoluirá. Ela reconhece que as dançarinas têm uma responsabilidade de trazer mais integridade à dança e manter o espírito das raízes culturais. Porém, ela tem sentimentos opostos sobre como ela gostaria de ver esta dança evoluir nos próximos cinqüenta anos. Parte dela gostaria de ver a dança ganhar status teatral respeitável no palco. Mas ela também percebe que uma parte importante seria perdida porque a essência da dança é a interação com as pessoas "bem ali nas ruas".

A linhagem Americana desta forma de dança representou circunstâncias variadas para a sua evolução. Jamila Salimpour iniciou a Bal-Anat por necessidade econômica e representava várias regiões em seu repertório de dança. Masha Archer estava mais preocupada com a beleza da forma de dança e se desligou da cultura original. Carolena Nericcio modifica a dança para manter o público entretido, mas sempre mantém o espírito da cultura dos ciganos do Oriente Médio. O fator de união das três professoras na linhagem de Estilo Tribal Americano é a paixão pela essência da forma de dança em vez de representar uma réplica exata das dançarinas ciganas originais.


Texto Original - Aqui


Texto extraído do Blog Tribal Mind
*por Rina Orellana Rall, principal dançarina FCBD 1988-1998
Tradutora: Suzana Guerra | Revisão: Aline Oliveira

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