quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MÚSICA - DOWNLOAD - TURBO TABLA

Baseada na publicação de Geisiane de Araújo para o Aerith Tribal Fusion Blog, na sessão World Fusion, vamos publicar links para download de música dos grupos sugeridos na sua postagem.

TURBO TABLA criado pelo músico egípcio e compositor Karim Nagi, que também arranjador de música e DJ. 

Ele é especialista em música tradicional árabe, mas é amplamente conhecido por sua abordagem inovadora.  

Seus álbuns são pioneiros, misturando sons árabes tradicionais com Hip Hop, Techno e House. 

Ele também gravou a música para Bellydance Superstars , Bellyqueen, e os Bellytwins.



Aqui neste link você pode baixar várias músicas do Turbo Tabla

Link para compra dos CDs: 

FONTES:
http://aerithtribalfusion.blogspot.com.br/2014/05/world-fusion-amostra-world-fusion.html
http://www.turbotabla.com/
https://www.facebook.com/knagi

O que é Tribal Fusion? por Jamille Berbare

TEXTO REPOSTADO, COM PERMISSÃO DE JAMILLE BERBARE.
Não reproduzir este texto sem contato prévio com a Autora!

O que é Tribal Fusion?

A dança tribal, considerada em constante mutação, é uma dança étnica contemporânea, que funde várias raízes e arquétipos. Tem sua base em danças orientais, como por exemplo, a dança do ventre, fusionando com dança indiana, flamenco, breakdance, danças folclóricas de várias regiões, inclusive as nômades orientais e ocidentais. É um estilo de dança contemporâneo, nascido na década de 60, mas é baseado também na ancestralidade artística.

A Dança Tribal, é uma vertente surgida nos EUA, em 1969, quando a dançarina Jamila Salimpour, ao fazer uma viagem ao Oriente, se encantou com os costumes dos povos tribais. Fascinada pela dança, pela estética e pelo universo místico do Oriente, Jamila resolve acrescentar e mesclar os elementos que havia conhecido na viagem. Junto à sua trupe Bal Anat, Jamila passou a desenvolver coreografias que utilizavam passos característicos da dança oriental e acessórios das danças folclóricas. Ela tomou como base as lendas tradicionais do Oriente para criar uma espécie de dança teatro, inventando um figurino inspirado no vestuário típico das mulheres orientais, que ficou como uma das características mais marcantes do estilo Tribal (SALIMPOUR, J. 1990).
  
“Estilo Tribal é uma modalidade de dança que funde arquétipos, conceitos e movimentos de danças étnicas das mais variadas regiões, como o Flamenco, a Dança Indiana e danças folclóricas de diversas partes do Oriente, desde as tradicionais manifestações folclóricas já bem conhecidas pelas bailarinas de dança do ventre às danças tribais da África Central, chegando até as longínquas tradições das populações islâmicas do Tajiquistão” (HALIM, S. 2008).

Rico em dramaticidade e plasticidade, o Tribal Fusion tem conquistado a atenção do público pela audácia em agregar elementos culturais diferentes e pela característica anacrônica: ao passo que evoca personagens míticos e arquetípicos recolhidos do passado, transportando o público à sua raiz antropológica, também traz elementos contemporâneos muito inovadores enquanto proposta artística, ratificados em uma indumentária tão intrigante quanto a dança, com todos esses componentes convivendo harmonicamente entre si (BRAZ, P. A. 2012).

A dança que permeia tudo, que é macrocósmica e microcósmica, é também expressão, comunicação. Na era da globalização, da liquefação dos valores mais primordiais o estilo Tribal parece vir na contramão desse processo, utilizando-se dele como mais uma ferramenta para refazer o jogo da ritualidade, da sacralidade, da criação (CELESTINO, L. C. 2008). “Assim, o Tribal seria a dança do novo milênio, da universalização, da globalização. A Dança do futuro!” (HALIM, S. 2008).

É uma dança propositalmente ecológica em seu figurino, pois faz utilização de sementes, flores, conchas e tudo o mais que remeta à ancestralidade e naturalidade (CELESTINO, L. C. 2008). Os figurinos são construídos desta forma, utilizando materiais da natureza e peças já existentes que são reutilizadas e transformadas para fazer parte da indumentária.

O estilo que hoje conhecemos como Dança Tribal, tem suas bases no trabalho desenvolvido por três grandes bailarinas: Jamila Salimpour, Masha Archer e Carolena Nericcio. Cada uma delas, a sua maneira, contribuiu para a estruturação e fundamentação do estilo, que é uma forma de dança bastante nova com suas origens nas tradicionais danças do Oriente Médio. Os componentes dessa história incluem dançarinos ciganos que inspiraram os orientalistas do século XIX (BRAZ, P. A. 2012).

Pensando no nascimento do estilo tribal, na década de 1960, Jamila Salimpour criou o grupo Bal Anat em 1968, com o qual fazia experimentos em fusionar danças diversas do Oriente Médio. Salimpour também ousou em desestruturar modelos vigentes a respeito de dança do ventre, circo e teatro, propondo uma fusão de todos os elementos a sua pesquisa em danças orientais. Nesse “movimento tribal” que começou a nascer nota-se uma intimidade com o movimento denominado de “Contracultura”.


A contracultura foi um grande movimento de arte, mesclado com manifestações dos movimentos sociais de contestação, que ao longo da década de 60 marcou o mundo e influenciou gerações. Não foi uma rebeldia de jovens, e sim a experiência de partir para a ação. Se estes movimentos não conseguiram mudar a realidade, ao menos transformaram mentalidades. Toda a aldeia global contestava os tabus morais e culturais, os costumes e padrões vigentes e as instituições sociais. Propunham-se novas maneiras de pensar, sentir e agir, e assim criava-se outro universo com regras e valores próprios.

O movimento tribal recebe grande influência deste movimento de contra cultura, pois agrega o misticismo, o orientalismo, as culturas alternativas, a quebra de padrões de danças vigentes na época e o modo comunitário de dançar em grupo. Mesmo que no seu início, o que contava era o entretenimento e ganho econômico, as grandes mães da dança tribal lutaram por outros objetivos.

A linhagem começa com os dançarinos ciganos do Norte da África, particularmente Ghawazee do Egito e Ouled Nail da Argélia. Os dançarinos ciganos foram introduzidos nos Estados Unidos em 1893, no Grand Columbia Exposition, em Chicago. Eles geraram grande agitação e fizeram shows burlescos que inspiraram toda uma nova Hollywood do gênero vamp. Bailarinos árabes foram atraídos por este glamour e queriam emular ideais ocidentais, portanto adotaram a versão Hollywood como sua própria. Assim a tradicional “dança do ventre moderna cabaré egípcia” é uma construção norte americana que foi modificada pelos árabes para suas próprias necessidades artísticas e econômicas, inseridos neste novo contexto cultural (RALL, R. O. 1997).

Jamila Salimpour, foi a responsável por ensinar essa construção norte americana de dança do ventre e a partir disso trazer suas fusões de acordo com a história e as necessidades.

Jamila se mudou para Berkeley, Califórnia em 1967, e a cidade estava cheia de estudantes que estimulados pela música indiana de Ravi Shankar (SALIMPOUR, J. 1990), estavam prontos para escutar e olhar para outra importação de destaque do Médio Oriente. Seus ensinamentos sobre dança foram encorajadores, pois as alunas absorviam os movimentos e as transições. Nessa época acontecia aos sábados a Feira da Renascença (Renaissance Pleasure Faire), a qual suas alunas se apresentavam de forma não sistematizada. Era uma feira de arte, organizada como um imenso circo ao ar livre baseado no século XVI, continha comida e entretenimento daquela época, juntamente com aparições da majestade Rainha Elizabeth, que dava um prêmio ao melhor artesão em exposição da Feira. Malabaristas, mágicos, mímicos, qualquer tipo de entretenimento era encorajado. Uma tentação era que qualquer um que viesse com uma fantasia de época ou qualquer coisa, podia entrar sem pagar. A coordenadora de entretenimento da feira, Carol Le Fleur, pediu a Jamila que organizasse suas alunas para que não ficassem desviando a atenção do público em vários lugares e momentos da feira, e sim utilizassem o palco por um período somente (SALIMPOUR, J. 1990).


Então foi em setembro de 1968 que a ideia de formar uma trupe nasceu para Jamila. Naquele ano ainda não possuíam um músico, e assim Jamila batucava acompanhada por uma bailarina de folk que recentemente havia adquirido a darbouka (um tipo de derbake) e se dedicado a aprender para tocar nos palcos. Desse modesto começo, o núcleo da trupe estava formado. Na busca de um nome, Jamila queria honrar a Deusa Mãe, Anat, e com “bal”, a palavra francesa para dança, surgiu o nome Bal Anat, a Dança da Deusa Mãe (SALIMPOUR, J. 1990). 

Jamila Salimpour sabia que o formato cabaret não seria apropriado para a Feira, e assim quis resgatar sua experiência do circo Ringling Brothers Circus. Assim o Bal Anat era como um show de variedades circenses que qualquer um desejaria ver em um festival árabe. O show de variedades que representava um meio termo de estilos de danças antigas com o Oriente Médio, em acréscimo com dois mágicos, Gilli Gilli do Egito, e Hassam do Marrocos. As dançarinas acrobatas egípcias eram tão flexíveis quanto seus predecessores, inclusive tinham um professor grego de matemática da UC Berkeley, que sabia como pegar uma mesa com os dentes, com Suhaila (filha de Jamila) em cima dela (SALIMPOUR, J. 1990).

Foi um olhar com um formato que eventualmente foi imitado por todos os Estados Unidos. Quem era profissional às vezes sabia esta origem, mas na maioria das vezes não tinham conhecimento de onde isso havia surgido. De fato, muitas pessoas acharam que essa era a “dança real”, quando na verdade era metade real e metade besteira. Os folhetos de Bal Anat informavam ao público que vieram de muitas tribos. Talvez fosse a origem da expressão “dança tribal” (SALIMPOUR, J. 1990).

Havia um problema em uma feira a céu aberto do século XVI, que era reproduzir músicas já que não havia eletricidade, baterias, amplificadores portáteis, e nenhum truque acústico do século XX. Assim tiveram que voltar às noites prévias das músicas das tribos. Foram utilizados para fazer música: snujs, sistrums (instrumentos de percussão), tamborins, batedores de madeira, derbakes, mijwiz (flauta de madeira originária da Síria), mesa de beledi (grande bumbo), edefs (parecido com tamborim), oud (cordofone em forma de meia pera ou gota, similar ao alaúde) e o mizmar (oboé egípcio), além de algumas tentativas feitas com a música indiana. A trupe estava instruída a fazer o zagareet, a ululação utilizada pela sociedade do Oriente Médio (SALIMPOUR, J. 1990).

Nos anos seguintes Jamila Salimpour, quis acrescentar mais variedades nas danças, então acrescentou dança dos copos de água, dança karsilama (réplica da dança popular turca), dança com espadas, com máscaras da Deusa Mãe (expressão das origens primitivas da dança), dança do “vaso” (apoiados na cabeça), danças beduínas, dança indiana katak (SALIMPOUR, J. 1990).

Jamila Salimpour é considerada a grande mãe do estilo por ter sido quem propôs as primeiras fusões e os primeiros experimentos e disseminou o estilo através do grupo Bal Anat. Na época ela pensava apenas em desenvolver um estilo próprio de se fazer dança do ventre, sem vislumbrar os rumos e proporções que o seu trabalho iria tomar. Masha Archer, sua aluna, foi quem deu contornos fundamentais para estética do estilo, no que diz respeito aos movimentos e, sobretudo, na composição dos figurinos.

Masha Archer havia interrompido seus estudos com Jamila uma vez que ela estava pronta para levar seus resultados aos clubes. Ela estudou com Jamila Salimpour por dois anos e meio antes de fundar o San Francisco Companhia de Dança Clássica, que existiu por catorze anos (1970 até meados da década de 1980). De acordo com Masha, Jamila sentiu que a dança merecia um local melhor do que restaurantes e bares, mas não havia nada que poderia ser feito sobre isso: "Ela estava transmitindo que tão repugnante como à cena pode ser, você tem que aturar isso porque esse é o único jogo na cidade”. Também, se você fosse um professor, você deve ensinar seus alunos a tolerar a situação e cooperar. Masha adotou a dança, mas tinha uma visão diferente de interpretá-la. A disciplina de Masha acrescentou uniformidade para o novo estilo por não distinguir entre os movimentos das diferentes regiões e simplesmente identificá-la como "dança do ventre". Carolena Nericcio, membro de sua trupe de sete anos, brincando, chamava o estilo de Masha de "Tribal Art Noveau”, porque ela queria que o figurino refletisse mais de uma mistura de arte europeia (RALL, R. O. 1997).


A abordagem de Masha para figurino foi influenciado por Jamila, mas ela o levou para mais longe “em um louco, o ecletismo, voraz aquisitivo”. As bailarinas pareciam algum tipo de europeus parisienses e tunisianos com um forte olhar bizantino tribal, que foi completamente inventado. Masha sustentou que o olhar era aparentemente autêntico, usando joias tribais e peças antigas do Oriente Médio e Europa. Ela se referiu a ele, porém, como "Authentic Modern American" por causa do conceito americano de tomar liberdades com a autenticidade e origem. Masha também teve uma atitude americana para a escolha de diferentes tipos de música para dança do ventre. Ela descobriu que usando apenas a música popular do Oriente Médio para a dança, o que era esperado, foi um caminho estreito de olhar para ela. Ela decidiu que não havia muitas fontes de música que relacionaram as expressões folclóricas, tais como fontes musicais de outros países, até mesmo ópera e músicas clássicas. Masha se recusou dançar em bares e restaurantes e preferiu tocar em eventos culturais. Deste modo ela trouxe a consciência de que havia outros lugares em que poderiam ser mostrada a dança do ventre, podendo ser uma peça de teatro aonde as pessoas vão com a finalidade de ver a arte realizada. No entanto, ela não se refere apenas a um estágio formal. Ela sustentou que a Feira da Renascença foi um excelente ambiente para a dança, porque as pessoas esperavam ver um show dos bailarinos e não tê-los apenas como um acessório erótico para jantar. "Estamos sendo considerados dançarinos intemporais deste mundo". Masha tinha consciência de que ela estava tomando liberdades extremas com esta dança e suas raízes culturais, mas sentiu fortemente que a dança era tão especial e tão merecedora de respeito que não importava o que ela faria. Todo este esforço seria lindo, esse foi o legado final que ela transmitiu aos seus alunos (RALL, R. O. 1997).

Carolena Nericcio começou a estudar com Masha Archer com a idade de 14 anos. Ela treinou com ela por sete anos antes de iniciar FatChance Bellydance (FCBD) em 1987. O FatChance é uma mistura das duas metodologias em termos de formato e estética. O formato de estilo tribal veio de Jamila: "... o coro, a criação do coro de meia-lua e os dançarinos que saem individualmente para fazer uma rotina de dois ou três pequenos minutos para depois voltarem para o refrão”. Eles seguem Jamila neste estilo de usar figurino pesado, mas com o estilo Masha de ter o olhar de fusão igual para todos. Carolena impressiona com seus alunos pela presença de palco mesmo exigente e personalidade em público que Masha e Jamila ensinaram, carregando sobre a intensidade do estímulo dos dançarinos de um ao outro o ulular vocal (zhagareets), durante uma performance (RALL, R. O. 1997).

Carolena Nericcio foi quem criou o estilo American Tribal Style (ATS) a partir dos trabalhos já fundamentados na experiência realizada com a sua professora. Junto ao FatChance Bellydance, Carolena estruturou todo um sistema de movimentação e deslocamentos, num caráter de coreografia improvisada, definiu e significou a postura básica do estilo e fundamentou a ideia de dança enquanto trabalho coletivo e de união e sinergia entre as bailarinas, características estas primariamente evocadas nos trabalhos de Salimpour e Archer como reflexo do movimento contracultural da década de 1960.  O Estilo Tribal Americano ou American Tribal Style (ATS), é uma a improvisação coordenada que é um sistema que parece uma brincadeira de "siga o líder" e baseia-se numa série de códigos e sinais corporais que as bailarinas aprendem, trupe a trupe. Esses sinais indicam qual será o próximo movimento a realizar, quando haverá transições, trocas de liderança, etc. Uma nova postura foi adotada pelas dançarinas desse estilo, inspirada no flamenco, com posições corporais diferenciadas visando dar maior amplitude aos movimentos (CELESTINO, L. C. 2008).

O ATS, hoje patenteado por sua criadora, reúne o trabalho destas três grandes bailarinas e professoras. Carolena sabe a importância de se manter fiel ao contexto cultural, mas ela sabe que o estilo tribal americano está aqui para ficar e que irá evoluir constantemente. Ela reconhece que os bailarinos têm a responsabilidade de trazer mais integridade para a dança e para manter o espírito das raízes culturais. No entanto, ela tem sentimentos opostos sobre como ela gostaria de ver esta dança evoluir nos próximos cinquenta anos. Parte dela gostaria de ver a dança teatral ganhar status respeitável no palco. Mas ela também percebe que uma parte importante seria perdida, porque a essência da dança é a interação com as pessoas "logo ali na rua”. Carolena encoraja sua trupe para se tornarem próximas, colaborarem com as outras e se fazerem poderosas e bonitas pra si e não para os outros. 

Muitos artistas continuam a criar e expandir este estilo, empurrando as fronteiras da dança do ventre com sua teatralidade, escolha musical, figurino e seleção local. Tribal Fusion continua a estar em um estado de evolução.

O Tribal chegou ao Brasil na década de 90 e aos poucos foi incorporando elementos da cultura brasileira nas coreografias e nos figurinos.  

Danças populares nordestinas como o Maracatu, o Coco, o Cavalo Marinho e o Afoxé são algumas das danças que hoje foram absorvidas ao repertório de movimentos de muitas companhias e bailarinas do país (BRAZ, P. A. 2012).

Em 2002, no Brasil, na cidade de São Paulo, a bailarina Shaide Halim cria a Cia. Halim Dança Étnica Contemporânea – a primeira trupe tribal do Brasil. Foi o início do Estilo Tribal Brasileiro. Desenvolvendo um trabalho baseado nestas modificações pelas quais o estilo passou, Shaide inova mais uma vez ao trabalhar com as danças de uma forma mais homogênea. A Cia. Halim teve seu trabalho coreográfico orientado pela composição musical, dando ênfase a uma ou outra modalidade de dança, seja oriental, indiana, africana ou brasileira, a partir do tema musical. Falar sobre Tribal é mostrar, com o corpo, a rede cultural dos povos do mundo (CELESTINO, L. C. 2008).

BRAZ, P. A. Shaman Tribal, 2012. Disponível em: . Acesso em : 10/10/2012. 

CELESTINO, L. C. Sementes, espelhos, moedas, fibras: a bricolagem da Dança Tribal e uma nova expressão do sagrado feminino. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2008. 

HALIM, S. Entrevista cedida em abril de 2008.

RALL, R. O. A History of American Tribal Style Bellydance. San Francisco State University, 1997. Dísponível em: . Acesso em: 02/04/2012.


SALIMPOUR, J. Anatomy of a Belly Dance Troupe. The Best of Habibi,1990. Vol. 3, n 3-4. http://thebestofhabibi.com/vol-17-no-3-spring-1999/from-many-tribes/. Visitado em 12/2012.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O QUE AFINAL É ESTA DANÇA?

Não é dança do ventre, nem tampouco pode ser considerado folclore. Também não é etnicamente tradicional. Estilo Tribal divide gostos e opiniões, e deixa uma dúvida: o que é afinal esta dança?

Para quem ainda não conhece, Estilo Tribal é uma modalidade de dança que, tendo como base a dança do ventre, funde arquétipos, conceitos e movimentos de danças étnicas das mais variadas regiões, como o Flamenco, a Dança Indiana e danças folclóricas de diversas partes do Oriente, desde as tradicionais manifestações folclóricas já bem conhecidas pelas bailarinas de dança do ventre às danças tribais da África Central, chegando até mesmo às longínquas tradições das populações islâmicas do Tajisquitão.

Para usar uma terminologia apropriada que não cause dúvida, espanto ou revolta nas defensoras da tradição, chamamos esta modalidade de Estilo Tribal Folclórico Interpretativo

Este estilo surgiu nos EUA, nos idos dos anos 70, quando a bailarina Jamila Salimpour, ao fazer uma viagem ao Oriente, se encantou com os costumes dos povos tribais daquela região. De volta à América, Jamila resolveu inovar e mesclar à dança do ventre as demais manifestações culturais que havia conhecido em sua viagem.

Com sua trupe Bal Anat, Jamila passou a desenvolver coreografias que aliavam acessórios das danças folclóricas aos passos característicos da dança do ventre, baseando-se em lendas tradicionais do Oriente para criar uma espécie de dança-teatro, acrescentando à isso um figurino mais condizente com o vestuário tradicional das verdadeiras mulheres orientais, abandonando então as lantejoulas e miçangas características dos trajes bedleh.
 Um exemplo que temos desta nova forma de dança é a tão popular Dança da Cimitarra (espada). Segundo Jamila, a primeira bailarina que comprovadamente apresentou esta dança, várias lendas sobre o uso da espada pelas mulheres do Oriente, em forma de dança, existem, mas nenhuma delas pode ser tida como real, já que o próprio povo daquela região não aceita esta dança como parte de suas lembranças culturais.

Uma forte característica trazida para o Estilo Tribal das danças tribais é a coletividade. 

Não há performances solos no Estilo Tribal. As bailarinas, como numa tribo, celebram a vida e a dança em grupo. Dentre as várias disposições cênicas do Estilo Tribal estão a roda e a meia lua. No grande círculo, as bailarinas têm a oportunidade de se comunicarem visualmente, de dançarem umas para as outras, de manterem o vínculo que as une como trupe. Da meia lua, surgem duetos, trios, quartetos, pequenos grupos que se destacam para levar até o público esta interatividade.

Nos anos 80, novas trupes já haviam se espalhado pelos EUA. Masha Archer, discípula de Jamila, ensina a sua aluna Carolena Nericcio as técnicas do Estilo Tribal, criadas por Jamila pra obter um melhor desempenho de suas bailarinas. 

Esta técnica baseia-se nos trabalhos de repetição e condicionamento muscular (e mental) do Ballet Clássico, adaptados aos movimentos das danças étnicas. Incentivada pelas diferenciações do novo estilo, Carolena forma sua própria trupe, que dará novos contornos à história do Estilo Tribal.

O figurino utilizado por Jamila e sua trupe cobria o torso da bailarina, sendo composto (ainda hoje mantido por esta trupe) basicamente por batas do tipo djellaba ou galabias. Isso tirava, segundo Carolena, um pouco da intenção e visualização do movimento. 

Surge então um novo visual ao Estilo, que até os dias de hoje continua predominando no cenário Tribal: saia longa e larga, sem abertura nas laterais ou calça pantalona ou salwar (bombacha indiana), choli (blusa curta de manga longa ou semi, que é tradicionalmente utilizada pelas mulheres indianas embaixo do sari), sutiã por cima da choli, xales, cintos, adereços, moedas, borlas, para incrementar o traje, dar maior visualização aos giros e tremidos etc.

Além deste novo figurino, Carolena e sua trupe FatChance Belly Dance trouxeram ao Estilo Tribal a complementação com movimentos oriundos da Dança Indiana e Flamenca, e a característica mais forte atualmente no Estilo Tribal: a improvisação coordenada. 
Esta improvisação parece uma brincadeira de "siga o líder", e baseia-se numa série de códigos e sinais corporais que as bailarinas aprendem, trupe a trupe, que indicam qual será o próximo movimento a realizar, quando haverá transições, trocas de liderança etc. Para a audiência, ficará a impressão de que aquela trupe está desenvolvendo uma coreografia diversas vezes ensaiada, mas ao contrário, elas estão improvisando todas as seqüências na hora, sem que com isso percam o sincronismo e a simetria em cena.

Ainda falando das inovações trazidas por Carolena, a nova postura desenvolvida por suas bailarinas e as posições corporais diferenciadas na execução dos passos dão amplitude aos movimentos, sendo então melhor visualizados pelo público.

Nos anos 90, o Estilo Tribal, passou a demonstrar com mais força a presença da Dança Indiana e ainda mais danças folclóricas foram adaptadas ao Estilo, tudo representado de uma forma simbólica e interpretativa, sem com isso querer traduzir a realidade destas danças, já que estão totalmente fora de seu contexto original.
 (Texto de Shaide Halim - 2008

Nota do Blog:

Em 1987 se dá a criação do FatChance Bellydance, e do ATS. Na década de 90, Jill Parker deixa o FCBD para criar seu próprio grupo - Ultra Gypsy - iniciando o movimento do Tribal Fusion.

Participe com a gente! Grupo no Facebook - PILARES DO TRIBAL

terça-feira, 25 de agosto de 2015

ENTREVISTAS - ALESSANDRA TUBBS

Alessandra Tubbs entrevistada pelo Olho Vivo - Cláudio Alcântara.

Alessandra Tubbs divulga a cultura e danças ciganas na região, o objetivo da bailarina é diminuir cada vez mais a visão deturpada que algumas pessoas têm dos ciganos.

"Eu e a dança somos um único ser, é missão terrena; quando danço me liberto das amarras terrenas e fico livre para criar." 
Ela é professora de ciências e biologia. Durante as manhãs, leciona no Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos). Mas é na dança que Alessandra Tubbs se transmuta. A magia dos movimentos preciosos conquista e encanta. Descendente dos ciganos Romnichals (Reino Unido), dança desde os 4 anos. Aos 20, começou a trabalhar com a dança no Rio de Janeiro e em 2007 mudou-se para Volta Redonda. Dois anos depois, iniciou os trabalhos com a dança e cultura cigana. Hoje tem um grupo (Companhia de Dança Cigana Al-Andalus), com 16 alunas/bailarinas) e é bailarina integrante do grupo de Danças Étnicas Al-dabarãn e do Grupo Tribal Bellydance Serpente do Deserto
É difícil viver da dança aqui na região? Em que está trabalhando atualmente? É complicado viver de dança no Brasil, no meu caso, se torna mais difícil, pelo fato de ensinar uma dança tão cercada de preconceitos. Leciono ciências no colégio e à noite dou aula de dança e cultura dos diversos clãs ciganos no Studio Daiane Marques. 
Como é a sua preparação (física, alimentação, cuidados estéticos) para a dança? A dança cigana requer um bom preparo físico. No meu caso, faço flamenco e tribal fusion uma vez por semana e mantenho uma alimentação saudável (não como carne, doces e frituras). 
Ainda existe preconceito com quem se dedica à arte de dançar, ou isso é coisa do passado? Não digo preconceito, mas sim uma falta de valorização, pois nós profissionais da dança gastamos com cursos, especializações, figurinos, ensaios e não temos a devida valorização, como em outras profissões. 
Geralmente onde são suas apresentações? Já se apresentou em que cidades da região? Dançou em outros estados? Países? 
Geralmente minhas apresentações de dança são em festas, eventos ou mostras de dança. Já dancei em São Paulo, em quase todo o Rio de Janeiro e Niterói. Na região, já dancei em Vassouras, Barra do Piraí, Pinheiral, Barra Mansa e Angra dos Reis. 
Você procura estar sempre se atualizando? Onde busca essas atualizações? Quais dançarinos influenciaram no seu processo criativo? Sempre estou me atualizando, pois a dança é mutável e as novas gerações reinventam a dança. Minhas especializações são, na maioria das vezes, com ciganas de vários clãs ou centros onde trabalham a cultura cigana, como o Centro de Danças Étnicas Al-Dabarãn e o Leshjae. Tenho algumas bailarinas no Brasil que admiro e com quem já estudei e trabalhei, como Anne Kellen (dança cigana russa), Wlavira TurczineK (dança cigana), Clara Sussekind - que ainda reside na Turquia (dança cigana turca), Safira - São Paulo (dança cigana banjari, kalbelia e romena). Também admiro o trabalho da bailarina Simona Jovic - República Tcheca. 
Em sua trajetória, quais os trabalhos você destaca, aqueles que foram mais gratificantes e prazerosos? Todos os trabalhos são prazerosos, a dança é o alimento da minha alma, mas destaco o trabalho que faço nas praças de Volta Redonda e no Zoológico Municipal, dar aula de dança cigana ao ar livre gratuitamente para a população que não conhece a cultura é muito gratificante.
Gostou da participação na "Quinta Cult"? Acha uma boa ideia as boates abrirem espaço para os dançarinos em suas festas semanais, como fazem com os cantores e bandas? Adorei, amei dançar na "Quinta Cult"! É uma excelente ideia, valoriza os artistas da região, dando oportunidade para a divulgação de seus trabalhos. 
A dança cigana tem uma função que vai além da artística em sua vida?  Eu e a dança somos um único ser, é missão terrena! Quando danço me liberto das amarras terrenas e fico livre para criar. A cultura cigana está em meu sangue, dançando eu honro meus ancestrais. 
Projetos. O que vem por aí? Sim tenho alguns projetos, que, por enquanto, não posso falar. O que posso adiantar é que todos envolvem uma melhor divulgação da cultura e danças ciganas, e com isso diminuir cada vez mais a visão deturpada que as pessoas têm em relação aos ciganos. 
Alessandra Tubbs - Contatos profissionais: (24) 9-9232-7623, blogFacebook, e-mail:(companhiaalandalus@gmail.com). Aulas: Studio Daiane Marques, Rua 558, nº 70, sala 105, Aterrado (prédio em cima do restaurante Spoleto).

FONTE: 

Do Blog da Aerith - Bailarinas do mesmo Ventre

BAILARINAS DO MESMO VENTRE
Texto extraído do blog - Aerith Tribal Fusion | Texto completo:

Falar sobre o que é o Tribal Fusion requer sair da "zona de conforto", sem indagações e contestações, para colocar nossas mentes para refletir e tentar raciocinar diante do tema, que não é tão simples assim, principalmente no Brasil. Primeiro, porque não moramos nos Estados Unidos, particularmente, na Califórnia, que foi o berço da dança. Conhecer o local, entrar em contato com sua cultura e “respirar o mesmo ar” é importante para começar a entender todo esse processo. Há de se pensar também no processo histórico, político, sócio-cultural para entender tudo isso. Ou seja, é bem mais complicado para entendermos do que as norte-americanas. Talvez, isso esteja na mesma proporção delas entenderem o samba e todo o processo que este também possui na nossa cultura. Segundo, como já dito anteriormente, a dança entrou faltando peças, aqui no Brasil. Faltou explicarem sobre o ATS® e que este era a base do Tribal Fusion. Ou seja, faltou uma parte bem grande a ser explicada. Quando conseguiram encaixar essa peça na cena, a dança já estava enraizada e, com ela, seus vícios, suas disfunções e carências. Mas houveram bailarinas engajadas em recuperar tudo isso e reconstruir  tudo isso. A dança tribal ainda é recente no país e, por mais que o acesso as informações e professores tenha sido aumentada, a comunidade de dança do ventre ainda não entende o que é o Tribal. Tudo isso eu já disse em um post anterior, que você pode ler aqui, caso tenha interesse.

Na minha opinião, o Tribal Fusion faz parte do grupo de danças do ventre. Danças essa que não é só a dança do ventre com “glamour” ocidentalizada que estamos acostumados a ver em cima dos palcos. Pensar em Tribal Fusion é  pensar no que é a própria Dança do Ventre. É tentar sistematizar as idéias para que essas tenham coerência entre si.  De forma bem simples (resumida), conhecemos a Dança do Ventre:
  • Tradicional - libanesa, egípcia, etc; 
  • Clássica - bases no ballet clássico, como giros, postura elegante, meia-ponta,etc;
  • Moderna - tem um visual mais flexível, músicas mais parecidas com ocidentais, mantendo-se os ritmos árabes, etc;
  • Folclore Árabe - Ghawazee, Khaleege, Hagalla, Fellahi, Núbia,etc;
  • Fusão - fusão da base de passos da dança do ventre com outras danças, como indiana, flamenca, africana, etc. 
Todos esse conjunto de dança faz parte das danças “do ventre”. Claro, muitas delas fazem referência à dança ligado originalmente ao arquétipo feminino, à celebrações cotidianas ou estacionais das diferentes épocas do ano, da fertilidade, gestação e maternidade. Essas danças tem em comum muito gingado, movimentos acentuados nos quadris, ondulações e vibrações abdominais. Sim, existem as danças árabes que são masculinas, mas estamos entrando apenas no mundo feminino, pois é o enfoque em questão. 

As danças folclóricas árabes são de diferentes lugares do Oriente Médio ( “um termo que se refere a uma área geográfica à volta das partes leste e sul do mar Mediterrâneo. É um território que se estende desde o leste do Mediterrâneo até ao golfo Pérsico.” ) e Norte da ÁfricaEu aprendi que estudar dança do ventre requer deixar a preguiça de lado e olhar todo o contexto em si. Então, para nos situarmos, temos que procurar um mapa geográfico e visualizar os países que fazem parte do:

 - Oriente Médio (Afeganistão, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Chipre, Egito, Emirados Árabes Unidos, Lémen, Israel, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwat, Líbano, Líbia, Omã, Palestina, Qatar, Síria, Sudão e Turquia);

- Norte da África (alguns países que são da região do Oriente Médio também fazem parte do Norte da África, como Egito, Líbia e Sudão; os demais países são Argélia, Marrocos e Tunísia).

Ouled Nail
A partir daí, temos que conectar às danças folclóricas que conhecemos. Por exemplo, o Hagalla é uma dança beduína, encontrada no Egito e Líbia. Dança Núbia é originária da Núbia, região entre o  Egito e Sudão ao longo do Rio Nilo. Fellahi é no Egito, uma dança de agricultores. Khaleege é uma dança do Golfo Pérsico (Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Quatar, Bahrein, Kuwait, Iraque, e Irã). As ghawazee são denominadas ciganas egípcias que, provavelmente, imigraram do Norte da Índia. Na Argélia temos as Ouled Nail. Enfim, essas são algumas danças típicas e suas regiões de origem.


Agora vamos nos voltar para a dança tribal. Sabemos que o Tribal tem três principais bailarinas que participaram do seu desenvolvimento: Jamila Salimpour, Masha Archer e Carolena Nericcio. A partir disso, podemos pensar em cada uma delas separadamente para depois juntá-las.

Pensei primeiro: “O quê é Jamila Salimpour?” Quais suas inspirações, influências? Como foi criado o Bal Anat? Eu não vou desenvolver tudo isso, pois isso daria outro enorme post. Então, de uma forma sucinta vou tentar colocar as respostas e esquematizar aqui. 

1) Anteriormente, Jamila foi dona de uma casa noturna, Bagdad Cabaret, no Broadway. E isso é um fator importante no contexto da dança tribal por dois motivos, na minha opinião: 
  • por ela ter estado em contato com diferentes bailarinas do Oriente Médio, conhecendo diferentes passos e catalogando os movimentos, criando um rico repertório de passos; 
  • para a construção de uma dança de entretenimento, uma dança performática.
2) Na década de  60, Bal Anat nasceu no contexto do Renaissance Faire, sendo um grupo bem circense, devido a sua bagagem como acrobata, havendo  apresentações acrobáticas, show de mágica, música ao vivo e representação de  fusão com danças  folclóricas do Egito, Marrocos, Argélia e Turquia de forma teatral e através de licença criativa/poética alteravam tais danças, ao introduzir alguns movimentos modernos, porém, de forma a aparentar que eram representativos ao arquétipo antigo para o público. Logo, a primeira geração tribal nasceu da fusão entre as danças folclóricas de tais regiões. O figurino do Bal Anat era baseado no Norte de África e do Mediterrâneo Oriental, assuit escuros, uso de máscaras, cobras e espada (sim, Jamila também foi a criadora da dança com a espada e com a cobra na dança do ventre). Assim, este tipo de tribal é chamado como Tribal Folclórico, termo que John Compton utilizava para descrever seu próprio grupo, Hahbi ' Ru, que é uma linha bem forte do Bal Anat.
  
Hahbi ' Ru

Nosso segundo pilar foi Masha Archer, aluna de Jamila e professora de Carolena Nericcio. Masha tinha uma óptica diferente da dança do ventre, ela queria valorizá-la, trazendo-a para cima dos palcos, tirando-a da marginalidade que ela vinha sendo tratada em bares e restaurantes. Masha formou, nos anos 70, o San Francisco Classic Dance Troupe, cujo estilo era denominado “Tribal Art Nouveau”, pois ela utilizava figurinos em tons pastéis, joalherias pesadas de tribos e peças antigas tanto do Oriente Médio quanto da Europa, fazendo alusão a Arte Européia; além do uso de outras músicas além das tradicionais folclóricas, mas músicas clássicas e óperas, o que compunha todo uma visão de uma dança que lembrasse pinturas européia.

O terceiro pilar e o fomentador do estilo Tribal, é Carolena Nericcio. No final da década de 80, ela cria o seu grupo, o FatChance BellyDance (FCBD). Carolena teve muita bagagem herdada por Masha, mas a distribuição das bailarinas no palco teve influência de Jamila: forma de coro em meia-lua, havendo momentos de destaque entre um pequeno grupo de duas ou três bailarinas que depois retornavam ao coro principal. No figurino há o uso de calças bufantes, xales, cholis , sutiã de moedas e uso de adornos étnicos e flores e muitas jóias étnicas. Ao figurino foi acrescentado turbantes, saia rodada, bindis e cinturões com pom-pons, além de ser um figurino mais sério, com mais uso do preto e cores vivas. Carolena resgata as raízes folclóricas do Norte da África e do Oriente Médio, acrescentando a postura, projeção do tórax, braços e alguns passos da dança flamenca, e o Kathak, dança do Norte da Índia, também foi acrescentando, através de giros e outros movimentos adaptados deste. Assim, houve a formatação dos passos mais utilizados a partir da necessidade de apresentá-lo em diferentes espaços (pequenos ou muito grandes), por meio da improvisação coordenada.

OBS: Lembrando que o ATS® não é a fusão aleatória da dança do ventre, indiana e flamenca! É uma dança formatada, que possui características próprias e independentes das danças anteriores mas que usou recursos das mesmas para criar sua própria identidade. Eu não vou me alongar nesse ponto, pois já dei a minha opinião sobre isso nos textos anteriores, quem se interessar, leia aqui.

Nesses três exemplos vemos o uso do termo “estilo tribal americano”. O termo “estilo tribal” pela tentativa de representar tribos e seus arquétipos de antiguidade. Contudo esse estilo não era genuíno, não era verdadeiramente étnico, pois eles não representavam fielmente seus folclores, modificando passos e figurinos; o termo “americano” é empregado para esclarecer que é uma adaptação americana, ou sob a óptica, “sensibilidade” dos norte-americanos em recriar aquele folclore e trazê-lo para nossa atualidade/realidade. Os americanos são muito performáticos, sempre elevando a arte em proporções de espetáculos e isso pode ter sido visto desde Jamila e seu show circense, visando a diversão e o entretenimento dos espectadores de forma impactante, inusitada e hipnotizante, através de uma série de atos entre  dança, malabarismos e magia. Esse lado circense é muito característico até hoje no Tribal Americano.
De uma forma bem simples, poderia ser um “Neo-folclore”, se esse termo fosse permitido, mas deixo claro que o emprego dele é incorreto, estou utilizando apenas para ilustrar este processo, porque folclore se trata de tradição, e isso é consolidado também através do tempo, passados através de gerações.

Bom, agora depois de traçar todo esse panorama sobre nossa dança, eu vou dar o meu ponto de vista. 

Na minha opinião a dança tribal é um tipo de dança do ventre. Não a dança do ventre que conhecemos, mas sim uma dança do ventre “modificada”. Vou dar um exemplo bem simples: médico x médico veterinário. Ambos são médicos, porém, um é de humanos e outro de animais. Geralmente o médico tem mais prestígio que um médico veterinário (= dança do ventre é mais famosa que a dança tribal). Contudo, o veterinário estuda não apenas  a base da medicina comum as duas, mas outras espécies de animais (= estuda diferentes fusões, como dança indiana, flamenca, street dance, etc), ele tem outras áreas de atuação além da clínica e laboratório, mas atua no campo, tecnologia de alimentos, etc . Eu vejo a mesma coisa com relação ao caso Dança do Ventre X Dança Tribal.

Outro ponto a demonstrar que o tribal é uma dança do ventre é que esta veio de bailarinas do ventre. Percebe-se que a maioria das bailarinas que já tem a base de dança do ventre consegue aprender o tribal sozinho (e esse foi o processo inicial que aconteceu no Brasil quando a informação ainda era escassa. Não vamos esquecer do processo que a dança se desenvolveu por aqui). Fazendo um parênteses: eu não estou dizendo que é para todo mundo deixar de fazer aulas de tribal porque você pode aprender sozinho. Não é essa a questão. Isso foi dado a “circunstâncias de sobrevivência” e adaptação de um estilo! As bailarinas tinham que se virar com as únicas informações escassas que conseguiam ter acesso para estudar. E logo depois tivemos o início de workshops internacionais que foram alicerçando melhor o estudo das bailarinas nacionais. Então, voltando ao assunto, imagine pegar uma bailarina que só dançou dança flamenca ou só dança indiana e nunca fez dança do ventre. Será que elas teriam a mesma facilidade que as bailarinas de dança do ventre? Eu acredito que não, apenas dominariam aquilo que diz respeito a sua dança, portanto, elas teriam que aprender os movimentos básicos da dança do ventre, como maias, shimmies etc, pois a maior base do tribal veio da dança do ventre. Imagine a dança tribal como uma árvore genealógica, quando vamos olhando as gerações vemos que o “sangue da dança do ventre” é o que mais se mantém. O cruzamento da dança do ventre com outras danças étnicas se deu com mais força a partir da Carolena Nericcio e sua trupe.

 Além disso, além da base de movimentação ser principalmente de dança do ventre, vemos os ritmos árabes sendo trabalhados com o uso de snujs e derbakes, eu nunca vi , por exemplo, o uso de percussão indiana nas apresentações de Tribal. O uso de elementos cênicos utilizados por bailarinas do ventre, como véus, cestos, jarros e espadas. As bailarinas de tribal no exterior sempre participam de eventos de dança do ventre e não somente os especializados na fusão tribal. Todas as bailarinas famosas, assim como grupos  utilizam o termo “bellydance”: FatChanceBellyDance, Black Sheep BellyDance, WildCard BellyDance, etc.
A dança tribal é étnica contemporânea  no sentido de remeter às tribos, seus folclores e culturas, mas contemporâneo por ser atual e fusionar com danças modernas, como o street dance e a dança contemporânea, por exemplo, misturando músicas eletrônicas, rock, metal, etc; usar figurinos mais leves, sem tantos adornos, ou que valorizem o corpo e a execução de seus movimentos. Eu não gosto muito de usar esse termo, ainda não me sinto confortável o suficiente por ter receio dele ser usado erroneamente (e já vi muitos equívocos e por isso estou comentando), de achar que a base da dança tribal é a dança contemporânea. Essa é um conceito equivocado! Todo o processo da dança tribal veio com a dança do ventre. A dança contemporânea foi introduzida depois, com bailarinas como Tjarda e Heather Stants, por exemplo. Nesses últimos 3 anos é que ela vem ganhando mais enfoque dentro da comunidade Tribal. 
Quando penso nos principais ícones do Tribal Fusion (apenas citarei a Rachel Brice e Zoe Jakes para não me estender ainda mais nesse post) vejo que as duas convergem em suas ideologias, mas usam as bases do tribal de forma diferente. Rachel tem muita influência do estilo Bal Anat, de Carolena Nericcio e Masha Archer; mesmo nunca ter tido aulas ou contato com esta, sinto muito a força de Masha em Rachel, que sempre usa um estilo mais vintage e a Art Nouveau em suas danças, isso foi muito bem visto no The Indigo e agora no Datura vemos as três linhagens bem características em sua dança. Eu acho que ela consegue passar um pouco das três bailarinas bases da Dança Tribal. Vejo Rachel usar a dança de forma ritualística, mas lembrando muito a cultura do Oriente Médio e suas mulheres, a força que um grupo feminino pode causar ao dançar juntas. No caso da Zoe eu sinto essa mistura meio diferente. A Zoe é muito mais performática e teatral na minha opinião, talvez seja toda a bagagem que ela vem tendo ao longo dos grupos de dança e musicais que fez parte. Zoe primeiramente fez parte do grupo Aywah de Katarina Burda, que estudou com Jamila e fez parte do Bal Anat; lembrando que a Zoe já fez parte do Suhaila Dance Company em 2001; também saiu em turnê com The Yard Dogs Road Show que tinha várias performances variadas desde tribal fusion quanto burlesco e afins. Na questão tribal dela, vejo muito o uso da raiz indiana que é a fusão que ela mais utiliza movimentos e aparenta gostar de interpretar seu cerne ritualístico.
No Brasil ainda não nos identificamos como bailarinas do ventre e nem as bailarinas de dança do ventre nos reconhecem como tal. Talvez pela forma que a dança entrou, como poucas informações, havendo “seqüelas” para comunidade de dança do ventre que ainda vê a Dança Tribal como algo estranho. Talvez para dar destaque e status, permitindo que seja uma dança independente e não vinculada à Dança do Ventre. Talvez por preconceito de ser uma dança alternativa, com muitas pessoas tatuadas, com piercings, cabelos coloridos que podem chocar um público acostumado com bailarinas padronizadas. Enfim.
A dança tribal, na minha opinião, é uma dança do ventre principalmente no sentido original da palavra, por ser uma dança feminina, ritualística, de valorização do corpo feminino, do parto, da maternidade e fertilidade. Por ser uma dança cujo ventre é o alicerce de toda dança. E sinceramente, essa rusticidade e sua ancestralidade, a força que ela emana vêm da forte consanguinidade entre suas principais danças que as compõem: indiana, dança do ventre e flamenca. Onde as três convergem em sua linha genética? As três tem a dança cigana como seu ascendente. E acho que isso é determinante para que o Tribal tenha nascido com esse espírito cigano, livre, indomável, ousado, sensual, alegre e festivo, cujas mulheres dançam entre si, resgatando sua feminilidade e ancestralidade nos dias atuais. Talvez essa seja a essência, a magia, o espírito da dança que precisamos alimentar nosso corpo nos dias de hoje, que sempre oxidam com o estilo de vida criado pelo homem industrializado, computadorizado e robotizado em sua rotina cotidiana.


** Negritos e destaques feitos pela autora deste blog, que achou pertinente ressaltar as questões que Aerith traz a tona **
Visite e curta: Nossa Tribo & Nossa Dança